28 de fevereiro de 2019

Uma piscina rasa

Ei garota, não esquece que as cicatrizes ainda existem,
não pense que você não tem ajuda alguma, você chegou até aqui.
Ei garota, essa piscina não é tão funda assim,
contorça seus sonhos, mas não desfaça da sua longa vida.
Quantas batalhas você lutou para chegar até aqui?

Diga-me quantas vezes você já tentou desistir,
me fala quantas vezes um sorriso te impediu de ir,
foque nesse sorriso e siga em frente, enfrente!
Deixe que o medo seja apenas uma sombra naquela piscina rasa,
você é muito mais profunda que isso.

Não, não deixe que suas emoções tomem conta de você,
não ache que sua sensibilidade é apenas fruto de uma obra de Machado,
em que mistérios e dúvidas predominam.
Menina, até mesmo com dúvida sua existência é preciosa.

Não deixe que seus pés se afastem do chão,
não deixe que o banco caia,
não se deixe sufocar por esse colar que aperta sua garganta,
lute contra seu medo, menina, mas não pule nessa piscina rasa,
não deixe que a corda aperte.
As cicatrizes ainda existem, e com elas você chegou até aqui.

24 de fevereiro de 2019

É que talvez...

Aproveite esse último sorriso,
e me diga as melhores palavras.
Me diga que sou tudo o que você precisa,
estou chegando ao chão e não te vejo sentir o que estou sentindo.

Talvez hoje seja a última vez,
Talvez esta noite seja a única vez,
Talvez nunca mais eu veja teu sorriso.
Em pedaços deixo meu coração na mesa.

Meu bem, essa corda aperta tão forte,
meus braços se contorcem neste momento.
Por favor me diga que eu sou única,
diga a importância que minha existência tem.

Porquê talvez hoje seja a última vez,
Talvez seja meu último suspiro,
Talvez seja o penúltimo torpor,
Talvez seja o último pedaço do meu coração.
Porquê eu estou chegando ao chão e, meu bem, não vejo você sentir o mesmo que eu sinto.

23 de fevereiro de 2019

Liberta-me

Vamos devagar, vamos aos poucos, não cobre de mim um todo.
Alguns meses, alguns anos, alguns nomes trocados por silêncios
e esquecer passados que parecem presentes e mágoas engolidas a seco.
Molharei as plantas da paciência, para entender o que aconteceu.

Vamos devagar!
Difícil lidar com perdas, com dores, com máscaras, com rostos,
com maquiagens retiradas, com dores caladas, com saudade nunca perdoada.
Vamos desfazer os sentimentos, as conversas, as visitas e a conexão.

Está na hora de dar um passo para o lado e dois para frente,
desatar esse nó que a vida deu na gente e desacreditar no "nós".
Você foi importante, o lado ruim de tudo o que pensei ser bom,
você foi o nome que me neguei dizer, o bloqueio, a fúria e o rancor.

Vamos devagar, vamos nos calar, vamos nos libertar.
Vai atrás do teu caminho, porque em meu ninho não existe espaço a mais.
Eu amei você e nunca vou me perdoar por ter feito isso.

17 de fevereiro de 2019

O meu ainda e o ainda não meu.

Ainda permanece aqui os sentimentos cultivados,
as dores causadas, as cicatrizes e as lembranças.
Ainda permanece intacto o teu cheiro e sorriso,
as suas palavras bonitas e suas atitudes que quebravam promessas.

Ainda existe o medo de voltar para sua armadilha,
ainda sinto falta dos seus jeitos,
ainda odeio sua voz,
ainda amo seus dedos e seus barulhos.

Permanece aqui tudo o que você deixou em mim,
você é o silêncio que grita, o coração que pulsa,
o medo que encoraja, o sorriso do nada,
a saudade nas canções, os ciclos das escolhas ruins.

Você ainda é aquele que me fez perder esperanças,
me fez perder os mundos, os sonhos e sanidade.
Você ainda é aquilo que me destruiu por dentro,
eu ainda me pergunto por quê você ainda existe em mim?
Por favor, suma e leve sua saudade com você.

11 de janeiro de 2019

Pedestal

Eu coloquei,
Firmei,
Colei,
Preguei,
Encaixei,
Fixei,
Fiz.
Eu fiz de tudo para colocar o mundo no pedestal,
Até sangrar, me machucar, me ferir e sentir a mesma cicatriz se abrir na mesma intensidade de antes.
Eu fiz de tudo pro mundo estar no pedestal.
Então bati na minha própria mão, magoei minh'alma, feri meus olhos e decidi não mais enxergar.
Eu fiz de novo,
E de novo,
De novo.
Mas o mundo não correspondia, não fazia, não ia, não era.
Até que um dia cansada demais de me cegar, olhando por outro ângulo, olhando na direção solar, eu vi que não era um pedestal,
Eu vi que era apenas um degrau que o mundo colocou para que assim a vida eu pudesse enxergar.
Eu fiz de tudo para colocar o mundo no meu lugar.

28 de dezembro de 2018

As mãos que falam

As mãos esfregando e a recepção do que é bom,
a herança, a ancestralidade, o nome e a fé.
Enquanto ela se permitia ser mensageira e missionária,
eu me permitia conhecê-la e guardar a sua missão.

Em nome, em sangue e em fé sou sua herança,
herdei sua teimosia, persistência ou pode-se dizer determinação.
Um legado de fé, de cuidado, de maternidade e de amor,
ela me deixou pedaços do próprio coração.

Tambores tocam dentro do meu peito,
existe um chamado que deverá ser cumprido,
existe a permissividade de agir como for mais confortável,
a única exigência é que a fé seja acolhedora, como o seu coração era.

Tambores, danças, braços, mãos que se esfregam,
olhos que dizem para persistir, sorrisos e gargalhadas.
Ela me diz em sonho para não temer a minha deixa,
e eu digo em sonho que seguirei suas ordens com todo o amor que me deixou.

Ela não precisou me dizer nada, ela não precisou escrever nada,
ela se foi fisicamente, mas se faz presente em meus dias,
se tornou a luz do meu caminho, o meu guia.
Tambores continuarão a tocar, por você e por todos os seus filhos.

21 de dezembro de 2018

Isso faz sentido?

As malas arrumadas e a esperança na bolsa, no bolso, no peito
pedindo a Deus um pouco de atenção e as lágrimas indicam A sua presença
pedaços de mim pelo chão, braços sem forças e joelhos marcados,
por favor, por favor, por favor responde.

As canções falam de saudade e os meus cacos vibram no chão,
o celular em silêncio, tudo ficando mudo e me sinto perdida.
Eu estou sem chão aqui, alguém pode me ajudar?

Então a saudade fala que quanto menos estiver presente,
ainda mais vou sentir.
Quando mais eu sentir, menos verei.
Isso faz sentido pra você?

A brisa leve anuncia os sinais dos milagres,
minha esperança em prantos recolhe meus pedaços do chão,
e o silêncio dos seus adormecem as dores em meus joelhos.
Ninguém entende, mas até o silêncio é um sinal de fé.

E eu percebo que a saudade tem um leve toque de Deus,
assim eu entendo que quando menos estiver vendo, ainda mais estará comigo.
Quanto mais sentir, menos verei.
Isso faz sentido pra você?
Faz para mim.

16 de agosto de 2018

Héritage

É que ir embora nem sempre é deixar para trás.

Ele arrumou a mala e suas poucas roupas e foi.
Antes parou na porta de um quarto e viu um pedaço seu que deixaria para trás.
Mas ele escolheu ir, para poder ficar.
Ele escolheu ir, para poder ficar e isso é tão contraditório. Não é?
Mas ele só conseguiria ficar perto, se fosse um tempo para longe.
Ele tinha que olhar por fora tudo o que estava acontecendo, para poder ter motivos para estar ali. E ele esteve. Ele está.
É que ir embora não é deixar tudo para trás, por dentro, ele sabia disso.
Ir embora também é uma forma de ficar, é se aproximar, é permanecer e, também, é se despedaçar.
Ele parou, se encostou na porta e escolheu um rumo diferente do que haviam previsto.
Ele escolheu àquilo que pudesse aproximar do que tanto amava. Ele resolveu partir para não ferir, mas ele se feriu, ele sangrou. Só ele sabe o quanto se feriu.
Mas ele lutou, enfrentou e finalmente confrontou seus medos para poder ficar. Ele ficou.
É que ir embora pode ser sinônimo de voltar, de estar, de permanecer.
Ele arrumou suas poucas coisas, quebrou o seu coração e foi. Foi para conseguir ficar.
E eu repeti o que ele fez. Eu fui embora, para poder ficar.
É que ele me deu coragem para confrontar, além do motivo para respirar.
Eu também fui embora, só para ficar ainda mais.

9 de agosto de 2018

É só um vento lá fora...

É só um vento lá fora que agora acompanha a pena azul da gaivota,
Esta que antes parecia apenas uma pétala ainda cheia de orvalho provocado pelo primeiro nascer do sol
E o meu coração ainda ouve o choro da criança desconhecida - hoje tão conhecida, que sorrir quando me ouve falar.
É um cheiro do cachimbo que se expande no ar e ainda reclama de passados que já não voltam mais.
É, só um vento, uma ave, uma pena, uma pétala a fumaça e a lua.
É o prédio cheio de vazios e o desencontro de ter invadido e morado em tantas casas, estas já nem me lembro mais. Acho que ouvi isso na voz de um um poeta.
Somos apenas sombras de canções, de cartões trocados, amores inacabados e novas gerações.
Ainda no quinto andar, ainda buscando a vida no silêncio que grita daquela caixa de joias de uma senhora que mesmo depois de ter ido, continua sendo mãe e amuleto.
Sou apenas o vento que sopra todas as lembranças quase que escondidas, quase que saudosas, quase que esquecidas na manhã do café doce demais, melão maduro e uma camisa verde cana que combina com uma calça lilás.
Sou apenas a foto daquela camisa desgastada, o vestido preto e branco e o Belchior no canto, autografado e amado.
É, de fato, é só um vento lá fora.

22 de maio de 2018

Assum Preto

Eu queria ser sabiá, mas me tornaram assum preto.
Cheia de sentimentos e olhos marcantes,
mas não era tão marcante ao ponto de me cegar
As emoções nos cegam e o mundo fura nossos olhos.

Eu queria ser sabiá, mas me tornaram assum preto.
Minhas canções alegres não serviam, então me colocaram músicas tristes,
e agora sou aquele tal "chão de giz" que diziam.
Compassivo, destrutivo, condoído e doído.
E como tem doído.

Eu queria ser sabiá, mas me tornaram assum preto.
E então todos os meus planos foram trocados,
meus medos se tornaram impulsos nervosos e tremores nas mãos,
alguém poderia me falar qual foi o crime que cometi?!

Eu nasci sabiá, mas cresci assum preto.
E eu estou presa nesta corrente que não me deixa voar,
eu preciso voar, mas será que consigo?
Até minhas asas foram cortadas.
E, em pequenos assovios, partilho minha dor com o mundo,
e muitos se alegram de poder me ouvir cantar a dor.