28 de junho de 2026

Quatro partes em mim, (por)fim.

Eu não preciso de um discurso dramático, não preciso ser vítima nas minhas palavras,

Eu já estou bem ciente das cicatrizes e de onde machuca, eu não vou mais pedir desculpa pelas pessoas que me tornei,

Eu sou tantas em uma.

Qual você vai querer dessa vez?

Aquela que aceita seus erros, apaga os danos e sorri com lágrimas nos olhos?

Aquela que chora gritando no travesseiro e pedindo para que a vida pare, e que respire somente mais  uma vez?

Aquela que esquece todas as feridas e fala seu nome como uma música de ninar?

Ou seria aquela que aguenta suas mudanças de humor como algo rotineiro?!


Me diga de uma vez que o seu maior arrependimento é ver em meus olhos ainda brilhado com vida,

Que se tudo tivesse sido interrompido naquele ano um tanto distante você estaria completo.

Eu não sou sua filha, eu sou seu favor, eu sou sua obrigação, eu sou seu erro, eu sou seu estrago, eu sou o seu lado ruim olhando de volta pra você tentando te fazer ser ou ter algo de bom.

Quando volto ao controle me pergunto se tem algo de bom aí dentro ou o tempo levou?

Seu sorriso não transparece felicidade.

Você me abraça e eu, de maneira doentia, me sinto acolhida. Em seguida sou sugada pela sua capacidade de destruir com promessas.


Quanto tempo se passou para que eu estivesse inerte e machucada a ponto de não ver suas contradições.

Vivi por décadas como a menina que falava seu nome como uma canção de ninar,

Ao te proteger, eu me feria e meus sentimentos foram tão destruídos que tenho lembranças deturpadas de você.

Você me quebrou, me fatiou em quatro partes onde todas só lhe viam como vítima da sua própria prisão. Você criou essa história, acabe com ela agora.

O monstro que caminha ao meu lado, segura minha mão e me abraça é aquele que me rejeitou antes mesmo de eu ter contato com o mundo aqui fora.


Dentro de um ventre eu já não era mais do que uma obrigação, um pedaço de lembrança dolorosa, que ao invés de desenvolver-se normalmente, se partia para agradar aqueles que deixavam doente.

E quando tudo era caos, eu silenciava as vozes do lado de fora e normalizava não lembrar da infância, não lembrar das partes ruins ou boas, apenas não lembrar. Mas ter pesadelos que contavam uma história diferente.

E ainda arde o tapa no rosto e o palavreado solto enquanto eu já tinha traços de inquietação, nervosismo, apreensão durante sua presença.

E o tempo passando e eu dividida em quatro partes e mesmo que todas fossem machucadas igualmente por você, eu te defendia. Enquanto ninguém estava ao meu lado quando os cortes começaram e as ideações de acabar com tudo.

Segure minha mão agora e veja como é frio colocar o que se sente para fora.

Veja meus cortes nos pulsos e saiba que tentei acabar com tudo isso três vezes.


Mas eu sempre fui a dramática, melindrosa, vitimista, a que agia de má-fé, que pegava o que não pertencia, que não tinha uma face honesta.

Qual face eu deveria ter dentro de um ambiente onde a mentira era comum?

O sangue corria no rosto, nas costas, no ouvido, mas o sorriso corria na rua, ao cumprimentar as pessoas que não fazia ideia do inferno que foi viver com vocês.

E qual das quatro eu devo escolher agora para lidar com todos vocês?

Acho que chegou a hora de eu me afastar de todo dano e dor que vocês me causam, as cicatrizes ardem, corroem e eu adoeço.

Meu maior erro foi não ter sido tirada de vocês antes do tempo, pelas mãos da senhora que talvez parecesse louca, mas na verdade não queria que eu enlouquecesse.


Está na hora de acabar comigo através de vocês. Está na hora de acabar com vocês através de mim.

Eu não serei mais um boneco manipulável. Aceitem minha ausência como um prêmio de consolação.

O que me destruiu não foi tentar sobreviver com vocês, não.

O que me destruiu foi não ter acabado comigo mesma antes.

O que me destruiu não foi tentar sobreviver com vocês, não.

O que me destruiu foi não ter acabado comigo mesma antes!

25 de janeiro de 2025

O fim

Você me olha e parece não perceber o dano causado.
Normaliza os dias com meus sentimentos silenciados,
mas eu não estou mais presente como antes, talvez eu já não te queira tanto,
acho que estou tentando manter minha vida nos trilhos, achei que você queria isso também.

Partilhei com você tantos segredos, tantas histórias.
Achei que iríamos construir um romance completo, mas tudo se quebrou, 
suas palavras de certeza não me afirmam nada, 
sinto medo do que ando pensando quando você está por perto. 

Seus abraços não me mantêm mais segura, 
seus beijos já não me fazem querer flutuar.
A minha indiferença não lhe afeta de tão focado em si mesmo,
talvez o fim seja a melhor maneira do recomeço.

23 de dezembro de 2024

Permanente

Parece que isso vai viver dentro de mim para sempre, 
e como eu lido para o coração não sentir um mão fria congelando todos meus sentimentos? 
Meu cérebro repete que tudo vai ficar bem, mas nada fica.
Cada recaída é como me jogar no precipício, 
e todo dia eu vejo isso do início. 

Não há medicamento que sane essa dor, 
não há mais perdão ou autopiedade,
já chega dessa conversa de que o tempo cura feridas e traz maturidade,
se quando criança não tive essa cura, nada vai curar o que me foi tirado. 

Eu só querida ter o direito de sentir uma felicidade que não tem fim,
sem substâncias, sem enganação, sem internamentos, sem desesperos, sem medo.
Eu não aguento mais guardar esse segredo, porque dentro de mim eu já não sei mais o que fazer,
anestesiar a dor não vai reverter o que em mim foi cortado e retirado,
é como se faltasse um pedaço de mim,
é como se pra sempre eu fosse viver assim.

17 de dezembro de 2024

Quero me libertar

Eu me perdi por instantes,
estive completamente absorvida em meu caos e dor,
queria sair do meu corpo e parar de sentir tanta dor e dormência.
Queria me libertar.

Eu me perdi por instantes,
caminhei nas direções erradas, 
encontrei pessoas tão ou mais perdidas que eu,
me envolviam em seu caos e eu não conseguia me retirar delas.
Queria me libertar.

Eu me perdi por instantes,
fiz decisões tão complicadas e não consigo me lembrar porquê,
tento voltar atrás e alguém me diz que pode ter sido um surto,
então emudeço e luto pra que isso não aconteça mais.
Quero me libertar.

12 de novembro de 2024

Restos

Vivemos uma vida numa velocidade que não imaginamos que perdemos pequenas coisas correndo atrás de grandes momentos,

As grandes partes, as grandes conquistas estão nos sorrisos depois de uma maneira realista de ver que certas lembranças tristes não foram tão tristes, assim como lembranças felizes, não foram tão felizes assim.

Parece estranho? Parece.

Mas quando a gente cresce, vamos diminuindo os pequenos momentos, as pequenas vitórias, agindo como se grandes carreiras e realizações de conquistas fossem algo que nos fizessem sentir a plenitude do ser.

Mas não, as pequenas conquistas é o que você vai levar com você pro resto da vida, quando na sua cabeça restarem apenas restos de memórias do seu ser.

Aprender a andar, o primeiro sorriso, covinhas nas bochechas, abrir os olhos ao amanhecer, se espreguiçar antes de levantar, avião na boca pra comer, o primeiro banho sozinho, a primeira vez que você anda de ônibus, o cheiro da primavera, ouvir o eu te amo dos seus pais, datas comemorativas em família, cheiro dos tios, tias e avós, tudo isso é muito maior do que o que você pode estar construindo agora.

Enfenda, não é desvalorizar o que se conquista, é entender que os valores que o dinheiro paga são apenas valores de manutenção, a verdadeira vida está ali no resto da lembrança que na velhice você vai olhar e pensar "eu vivi muito e nunca foi em vão".

Aproveite os sorrisos, os abraços, as comemorações, os beijos, os sonhos, se espreguice mais, se olhe no espelho, diga mais que você ama as pessoas que te amam, fale mais sobre sentimentos e emoções, porque o que nos mantém a gente corre atrás, mas as pessoas que se vão, nunca poderemos trazer de volta!

Dê valor às pequenas coisas. Aquelas coisas que muitos chamam de resto.

16 de janeiro de 2020

Quebra cabeças

Estive anos e anos debaixo de uma grande árvore que jurava que debaixo dela eu poderia ter a sombra mais fresca e maior de todo o jardim. Mas sempre via dona coruja sobrevoando e um pequeno beija-flor que, olhando para mim, diziam para não ter medo, pois havia segurança longe da grande árvore, mas eu temia a força do brilho do sol, não conseguia ver tanta liberdade quanto a dona coruja e o pequeno beija-flor. Em minha pequena bolsa carregava pedaços, não sabia o que significavam, alguns muito escuros, outros claros demais e outros confusos e abstratos. A grande árvore me dava peças, a maioria escuras e outras abstratas e eu, na minha pequena e - para mim - insignificante existência, achava que de nada serviam, mas recebê-las me manteria segura e fresca debaixo daquela grande árvore. Logo brotaram galhos e mais galhos e o espaço entre a árvore e eu foi ficando maior e eu já não mais ouvia, a grande coruja com seus olhos atentos e protetores dizia para sair dali, para deixar o medo de lado e o pequeno beija-flor me dizia para andar, dizia que eu tinha um grande brilho que a árvore queria ofuscar. Um dia a coruja tomou coragem e me disse:
- As peças dessa sua bolsa são quebra cabeças, você deve montá-lo ao seu modo, pode usar as mais escuras e ver as mais claras, pode usar as abstratas ou simplesmente criar seu modo de ver, desde que não se prenda àquilo que ofusca você.
Eu finalmente decidi ouvir a linda e sábia coruja e montei o quebra cabeças do meu jeito, deixando as escuras me guiarem até as abstratas e chegar até as mais claras, vi que a montagem desse quebra cabeças permitia que visse meu reflexo, o beija-flor perplexo e feliz cantava que eu havia conseguido, em seu canto ouvia choros que eram de alegria. As partes escuras eram reflexo daquela grande árvore e então eu pude perceber o brilho que tinha. Somos feitos de sombras, mas não quer dizer que o sol nos fará mal, devemos ouvir os conselhos sábios e nos apegar aos beija flores que chegarão para nos encorajar, devemos olhar nos olhos das corujas e acreditar que é possível voar. A árvore não era mais minha sombra, não era mais meu lugar, percebi que poderia ser muito mais que uma pequena bolsa cheia de peças, eu podia brilhar.

2 de outubro de 2019

Sobre heróis ou algo assim

Horas parada olhando as marcas nos braços, as cicatrizes nos pulsos e cheia de lembranças de um passado não tão distante,
essa dor de angústia é uma arma cortante que me faz acreditar que afaga a pele,
mas me fere, me destrói, me desmonta e corrói tudo aquilo que eu demorei anos pra construir.
Vocês não vão chegar, vocês nunca estiveram aqui.

Os gritos na madrugada que perfuravam os ouvidos, os pesadelos repetidos e tão implacáveis quanto as marcas antigas,
embora estivesse com vida, não havia mais motivos para sorrir.
Arrastando seu corpo tão definhado quanto sua alma e mesmo que os olhos transparecessem calma,
não havia mais nada ali.
Vocês não vão chegar, vocês nunca estiveram aqui.

Em sonhos vinha um pouco de fé, de motivos para continuar ali e ficar de pé,
mas de que adiantava olhar para o céu se suas lágrimas embaçavam as imagens que os olhos acreditavam que poderiam tocar,
você está sozinha e sempre vai estar,
tão frágil e esperançosa com as mãos trêmulas e raivosas por acreditar em histórias felizes,
mesmo que na memória só habitem cicatrizes, ainda esperava que eles fossem chegar.
Seus heróis não virão te segurar.

Quando a dor começou a tirar tudo o que restava de bom,
a vida mudou de tom e tudo entrou numa escala de cinza escuro e o coração tão puro se deixou levar pela dor de existir,
se questionar pra que continuar, pra que prosseguir,
esperando que um fio de vida viesse mudar seu passado.
Um coração tão condenado a adversidades, contratempos e amargura,
gritava que o amor poderia ser a cura, mas não havia mais amor por ali.
Eles não vão chegar, eles não estão aqui.

Uma juventude roubada jogada a um futuro audaz, cruel e torturante,
remédios que tornaram os momentos bons um pouco mais duradouros, 
poupou tempo, pensamento e cortou o choro,
não existia mais nada ali, era só um corpo que buscava algo ao que se apegar, 
mas de que adiantava procurar coisas que nunca a quiseram ali?! 
Seus heróis não vão te ver seguir.

Abrace a si mesma, console seu próprio coração,
foi dessa forma que a vida lhe ensinou a lição de que nem sempre estar sozinha é solidão.
Então não espere que alguém venha por aquela porta que dá acesso ao nono andar,
você tomou a decisão, fechou os olhos e abriu o coração e acreditou que iria voar.
Mas seus heróis não vieram... eles nunca vieram lhe buscar.

29 de setembro de 2019

Demasiada.mente

Os cortes se tornaram pequenos ensaios para um dia que a sorte resolva mudar.
Ainda tenho as cicatrizes dos machucados na minha alma, mas ninguém vê,
muitas vezes eu gritei de dor, mas nunca fui ouvida, muitas vezes eu fui chamada de dramática,
ninguém entendia a intensidade que eu amava, que eu sentia, que eu me machucava.
"Pare de se fazer de vítima!", a frase que ecoa na cabeça quando tudo dói.

Traços pequenos, quase retos, quase invisíveis nos pulsos de alguém tão triste,
que ainda existe num passado tão doloroso e cheio de marcas de lágrimas.
Eu ainda estou presa ao que aconteceu lá e hoje eu sei que sempre vou estar.
Eu gritei de dor, ainda sinto o gosto do veneno tomado na primeira dose para acabar com a dor,
mas não passava, eu apenas agonizava sentimentos que ainda me fazem viver ali.

Eu jurei pra mim mesma que não ia tentar de novo, 
mas lá vem os sentimentos descontrolados e os limites sempre ultrapassados por mim,
o carro acelerado, sinais fechados, mas o meu medo havia sumido,
eu queria fazer o mesmo que ele.

Os cortes se tornaram pequenos ensaios para um dia que a sorte resolva mudar.
E eu achando que nunca iria afundar de novo, mas nunca estive no raso,
eu nunca fui tão superficial, vaga, desabitada, desumana,
eu sempre fui muito mais profunda e minha intensidade inunda todo o meu ser.
Agora eu tenho muito mais marcas, muito mais cicatrizes, muito mais desistências
Eu achei que poderia mudar minhas essências, mas fui feita demasiadamente sentimental,
eu juro que não me faço de vítima, mas pra mim o amor sempre será fatal.

Meu limítrofe

Muitas vezes louca, muitas vezes contida
Às vezes tão certeza, outras dividida,
sou feita de momentos, incertezas tão certas
e pequenos surtos que me fizeram chegar até aqui.

Os pulsos com cicatrizes,
ainda me lembro o gosto daquelas doses altas
usadas para matar a dor que eu não sabia de onde vinha.
Mas não adiantou, eu ainda estou aqui.

Tantos anos para um diagnóstico,
uma tradução do que fui, do que sou e do que serei,
mas não conserta as dores que em mim foram dadas,
eu já vim de uma linha de crianças rejeitadas,
não era digna de ser amada, nunca fui.

E não adianta olhar pra trás e pedir desculpas,
eu nunca vou conseguir consertar e nem lidar com culpas,
culpas que herdei de uma lembrança tão ruim.
Talvez tenha que ser assim, talvez seja isso que resta de mim.

20 de setembro de 2019

Além dos olhos

Eu quero ser o motivo do desconforto, dos olhos emocionados e dos girassóis,
eu quero ser a saudade incontrolada, o grito, o choro e as lembranças dos nós.
Eu quero ser o laço, o abraço, o carinho, o muro pichado, o afago, o desperdício,
eu quero ser um impacto, um descontrole, uma distância e um pedaço de fé.

Eu quero ser o motivo de lembranças, fotos, páginas, textos e poemas,
eu quero estar em músicas, canetas, postais e toques de celular.
Eu quero ser o impacto que o mundo vai sentir como as asas da borboleta no oceano,
eu quero ser o futuro de um plano que nem sequer foi traçado direito.

Eu quero ser a viagem, o dom, o tom, a cor e a oração de alguém,
eu quero ser aquele desejo do bem, de quem, dos cem.
Eu quero passar por milhares de cabeças, por milhares de olhos, por milhares de lembranças,
por conta das circunstâncias até ali.

Eu quero ser a planta que cresce e arranca o coração pela raiz,
mas não na intenção de maltratar, machucar ou quebrar o amor de alguém,
eu quero ser o motivo que se ama além daquilo que os olhos podem ver.