Eu não preciso de um discurso dramático, não preciso ser vítima nas minhas palavras,
Eu já estou bem ciente das cicatrizes e de onde machuca, eu não vou mais pedir desculpa pelas pessoas que me tornei,
Eu sou tantas em uma.
Qual você vai querer dessa vez?
Aquela que aceita seus erros, apaga os danos e sorri com lágrimas nos olhos?
Aquela que chora gritando no travesseiro e pedindo para que a vida pare, e que respire somente mais uma vez?
Aquela que esquece todas as feridas e fala seu nome como uma música de ninar?
Ou seria aquela que aguenta suas mudanças de humor como algo rotineiro?!
Me diga de uma vez que o seu maior arrependimento é ver em meus olhos ainda brilhado com vida,
Que se tudo tivesse sido interrompido naquele ano um tanto distante você estaria completo.
Eu não sou sua filha, eu sou seu favor, eu sou sua obrigação, eu sou seu erro, eu sou seu estrago, eu sou o seu lado ruim olhando de volta pra você tentando te fazer ser ou ter algo de bom.
Quando volto ao controle me pergunto se tem algo de bom aí dentro ou o tempo levou?
Seu sorriso não transparece felicidade.
Você me abraça e eu, de maneira doentia, me sinto acolhida. Em seguida sou sugada pela sua capacidade de destruir com promessas.
Quanto tempo se passou para que eu estivesse inerte e machucada a ponto de não ver suas contradições.
Vivi por décadas como a menina que falava seu nome como uma canção de ninar,
Ao te proteger, eu me feria e meus sentimentos foram tão destruídos que tenho lembranças deturpadas de você.
Você me quebrou, me fatiou em quatro partes onde todas só lhe viam como vítima da sua própria prisão. Você criou essa história, acabe com ela agora.
O monstro que caminha ao meu lado, segura minha mão e me abraça é aquele que me rejeitou antes mesmo de eu ter contato com o mundo aqui fora.
Dentro de um ventre eu já não era mais do que uma obrigação, um pedaço de lembrança dolorosa, que ao invés de desenvolver-se normalmente, se partia para agradar aqueles que deixavam doente.
E quando tudo era caos, eu silenciava as vozes do lado de fora e normalizava não lembrar da infância, não lembrar das partes ruins ou boas, apenas não lembrar. Mas ter pesadelos que contavam uma história diferente.
E ainda arde o tapa no rosto e o palavreado solto enquanto eu já tinha traços de inquietação, nervosismo, apreensão durante sua presença.
E o tempo passando e eu dividida em quatro partes e mesmo que todas fossem machucadas igualmente por você, eu te defendia. Enquanto ninguém estava ao meu lado quando os cortes começaram e as ideações de acabar com tudo.
Segure minha mão agora e veja como é frio colocar o que se sente para fora.
Veja meus cortes nos pulsos e saiba que tentei acabar com tudo isso três vezes.
Mas eu sempre fui a dramática, melindrosa, vitimista, a que agia de má-fé, que pegava o que não pertencia, que não tinha uma face honesta.
Qual face eu deveria ter dentro de um ambiente onde a mentira era comum?
O sangue corria no rosto, nas costas, no ouvido, mas o sorriso corria na rua, ao cumprimentar as pessoas que não fazia ideia do inferno que foi viver com vocês.
E qual das quatro eu devo escolher agora para lidar com todos vocês?
Acho que chegou a hora de eu me afastar de todo dano e dor que vocês me causam, as cicatrizes ardem, corroem e eu adoeço.
Meu maior erro foi não ter sido tirada de vocês antes do tempo, pelas mãos da senhora que talvez parecesse louca, mas na verdade não queria que eu enlouquecesse.
Está na hora de acabar comigo através de vocês. Está na hora de acabar com vocês através de mim.
Eu não serei mais um boneco manipulável. Aceitem minha ausência como um prêmio de consolação.
O que me destruiu não foi tentar sobreviver com vocês, não.
O que me destruiu foi não ter acabado comigo mesma antes.
O que me destruiu não foi tentar sobreviver com vocês, não.
O que me destruiu foi não ter acabado comigo mesma antes!